Seu filho não quer compartilhar? Não tente obrigá-lo, mas aprenda a ensinar gentileza sem desrespeitar os limites da sua criança
MATERNIDADE
Aliny Pedrolli
8/11/20266 min read
Seu filho não quer compartilhar? Não tente obrigá-lo, mas aprenda a ensinar gentileza sem desrespeitar os limites da sua criança
Existe uma cena bastante comum na infância: duas crianças estão brincando e uma delas pede o brinquedo que está nas mãos da outra.
A resposta vem rapidamente:
“Não! É meu!”
E, muitas vezes, antes mesmo que a criança consiga elaborar o que está sentindo, surge a intervenção do adulto:
— “Empresta para o seu amiguinho.”
— “Você precisa compartilhar.”
— “Que feio, não seja egoísta.”
— “Se você não emprestar, ninguém vai querer brincar com você.”
Mas será que obrigar uma criança a entregar um brinquedo é realmente a melhor maneira de ensiná-la a compartilhar?
Não precisa ser assim.
Ensinar uma criança a conviver, dividir, esperar e considerar o outro não significa ensinar que ela deve entregar tudo o que possui sempre que alguém pedir.
A parentalidade positiva propõe justamente essa combinação: acolher os sentimentos da criança, estabelecer limites claros e ajudá-la a aprender comportamentos adequados sem recorrer a medo, humilhação ou violência.
Compartilhar é uma aprendizagem — não uma obrigação automática
Uma criança pequena ainda está desenvolvendo habilidades como autorregulação, negociação, espera e compreensão das necessidades do outro.
Por isso, dizer:
“Você precisa emprestar agora!”
pode até fazer com que ela entregue o brinquedo naquele momento. Mas isso não significa que ela tenha aprendido a compartilhar.
Ela pode simplesmente ter aprendido:
“Quando um adulto manda, eu preciso abrir mão.”
O objetivo é outro.
Queremos que, aos poucos, ela compreenda:
“Eu tenho meus desejos, mas as outras pessoas também têm.”
E essa aprendizagem acontece principalmente nas experiências cotidianas.
O UNICEF ressalta a importância de expectativas realistas e adequadas ao desenvolvimento infantil, porque muitas dificuldades na educação surgem quando esperamos da criança comportamentos que ela ainda está aprendendo a desenvolver.
O que dizer quando seu filho fala: “eu não quero emprestar”?
Em vez de transformar o momento em uma disputa, você pode começar reconhecendo o que está acontecendo:
“Tudo bem. Você ainda está brincando com esse brinquedo.”
E acrescentar:
“Você não precisa emprestar agora, mas precisa tratar a outra criança com gentileza.”
Essa resposta ensina duas coisas simultaneamente:
você pode ter limites; o outro também merece respeito.
O Estatuto da Criança e do Adolescente reconhece o direito ao respeito e à preservação da integridade física, psíquica e moral, incluindo espaços e objetos pessoais da criança.
Isso não significa deixar a criança fazer tudo o que quiser.
Significa ensinar que limites também podem existir para a criança — sem que ela seja humilhada ou constrangida.
Seu filho pode dizer “não” — mas precisa aprender a dizer “não” com respeito
Existe uma diferença importante entre estabelecer um limite e agredir alguém.
Seu filho pode dizer:
“Agora eu não quero emprestar.”
Mas não pode:
bater;
empurrar;
arrancar o brinquedo das mãos de outra criança;
insultar;
destruir o brinquedo;
machucar alguém.
Você pode então dizer: “Você pode não querer emprestar agora. Mas não pode bater. Vamos encontrar outra solução.”
Esse é um excelente momento educativo.
A criança aprende que seus sentimentos são legítimos, mas eles não autorizam qualquer comportamento.
E se outra criança quiser muito aquele brinquedo?
Não é necessário obrigar seu filho a entregar imediatamente.
Você pode ajudar as crianças a negociar:
“Ela ainda está brincando. Quando terminar, será a sua vez.”
Ou:
“Vamos procurar outro brinquedo enquanto esperamos?”
Ou ainda:
“Você quer brincar mais um pouco e depois passar a vez?”
Assim, a criança começa a compreender um dos princípios mais importantes da convivência: nem sempre podemos ter imediatamente aquilo que queremos.
Esperar também é uma aprendizagem.
Ensine a criança a compartilhar sem ensinar que ela precisa dizer “sim” para tudo
Essa talvez seja uma das mensagens mais importantes para levar para a maternidade e a paternidade.
Não queremos criar crianças que pensem:
“Para ser uma pessoa boa, preciso sempre entregar o que me pedem.”
Queremos crianças que consigam compreender:
“Eu posso dizer não, mas também preciso respeitar o outro.”
Isso vale para brinquedos, comida, espaço pessoal, brincadeiras e, conforme a criança cresce, para inúmeras outras situações.
A Convenção sobre os Direitos da Criança também reconhece o direito de a criança ser ouvida e de suas opiniões serem levadas a sério, considerando sua capacidade de desenvolvimento.
Compartilhar não significa necessariamente emprestar
Quando pensamos em compartilhar, muitas vezes imaginamos uma criança entregando seu brinquedo para outra.
Mas compartilhar pode assumir várias formas.
A criança pode:
brincar junto;
esperar sua vez;
trocar brinquedos;
emprestar depois de terminar;
dividir materiais;
convidar outra criança para participar;
ajudar alguém;
oferecer espontaneamente alguma coisa.
Na educação infantil, situações cotidianas de cooperação e compartilhamento podem ser utilizadas como oportunidades de aprendizagem social.
Portanto, não transforme cada brinquedo em um teste de caráter.
Uma criança que não emprestou um carrinho não é necessariamente uma criança egoísta.
Ela pode simplesmente estar aprendendo.
Cuidado com o “que feio!” e com os rótulos
Algumas frases parecem inofensivas, mas podem transformar uma situação cotidiana em uma experiência de vergonha:
“Você é egoísta.”
“Que criança feia.”
“Estou com vergonha de você.”
“Olha como o amiguinho é bonzinho e você não.”
O problema é que a criança deixa de pensar sobre o comportamento e começa a pensar sobre quem ela é.
Em vez de:
“Você é egoísta.”
experimente:
“Você não quis emprestar agora. Vamos pensar em uma maneira de vocês dois brincarem.”
Em vez de:
“Que feio!”
diga:
“Você ficou bravo porque queria continuar brincando. Eu entendo. Mas não podemos empurrar.”
Você corrige o comportamento sem transformar o comportamento na identidade da criança.
Seis frases que mães, pais, cuidadores ou responsáveis podem usar na próxima disputa por brinquedos
Na próxima vez que surgir aquela pequena disputa pelo carrinho, boneca, bola ou tablet, experimente dizer estas frases:
1. “Filho/a, você pode dizer: eu ainda estou brincando com esse brinquedo.”
2. “Quando você se sentir pronto, pode escolher emprestar o brinquedo.”
3. “Você pode dizer não, mas precisa tratar a outra criança com gentileza.”
4. “Enquanto você termina, vamos procurar outro brinquedo para a outra criança brincar?”
5. “Você gostaria de brincar mais um pouco antes de passar o brinquedo para a outra criança?.”
6. “Vamos praticar a troca? Assim todos tem a chance de brincar um pouquinho.”
São frases simples, mas ajudam a substituir a ordem pelo ensino.
E quando a criança finalmente compartilha?
Também vale prestar atenção à maneira como elogiamos.
Em vez de:
“Viu? Você foi bonzinho porque emprestou!”
Você pode dizer:
“Você percebeu que seu amigo também queria brincar e encontrou uma solução.”
Ou:
“Você esperou sua vez e depois conseguiu dar a vez para ele.”
Assim, a criança começa a perceber qual comportamento ajudou a situação a funcionar.
O verdadeiro objetivo não é criar crianças que compartilham por medo
O objetivo não é criar uma criança que entrega tudo porque tem medo de ouvir:
“Você é egoísta.”
Também não é criar uma criança que nunca aceita dividir nada.
O caminho está no meio.
Queremos ajudá-la a desenvolver empatia, negociação, generosidade, respeito e capacidade de estabelecer limites.
E isso leva tempo.
A disciplina positiva não significa ausência de regras. Pelo contrário: envolve limites claros, expectativas realistas e orientação sem violência.
Talvez a pergunta não seja “meu filho compartilhou?”
Na próxima vez que seu filho disser “não quero emprestar”, tente trocar a pergunta.
Em vez de pensar:
“Como faço meu filho compartilhar?”
pense:
“Como posso ajudá-lo a lidar com esse conflito?”
Talvez ele ainda não esteja pronto para emprestar.
Talvez precise terminar a brincadeira.
Talvez precise de ajuda para negociar.
Talvez esteja cansado.
Ou talvez simplesmente precise aprender que dizer “não” pode ser permitido quando acompanhado de respeito.
A infância é justamente o período em que essas habilidades são construídas.
E nós, adultos, não precisamos aproveitar cada conflito para dar uma bronca.
Podemos aproveitar para ensinar.
Seja Leve
Não queremos criar crianças que dizem “sim” para todo mundo.
Queremos criar crianças que saibam dizer:
“Agora não.”
E que também aprendam a ouvir:
“Agora não.”
Porque uma criança que aprende a respeitar seus próprios limites também terá mais oportunidades de compreender que os limites das outras pessoas importam.
No fim, ensinar a compartilhar não é obrigar uma criança a entregar aquilo que é dela.
É ajudá-la a descobrir, pouco a pouco, como conviver com o outro sem deixar de respeitar a si mesma.
Ser Leve
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